quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Mais música e sonho...



Certamente minha Sampa mudou muito - às vezes penso que para pior, mas acontecem certas coisas que acabam me deixando "nas nuvens"...

Metrô Vila Madalena - conheço essa região desde minha adolescência, nem existia essa estação de trem, mas o trânsito e o burburinho sempre foram intensos. Vou chegando perto da fila das vans que levam os passageiros à estação Cidade Universitária e, repentinamente, diviso dois jovens que deveriam ter no máximo uns vinte e um anos de idade. Vestidos com muita simplicidade e tendo à frente de ambos um chapéu jogado ao chão (haviam moedas dentro), cantavam uma melodia em inglês muito bonita - os dois cantavam a duas vozes, um tocava um violão simples, de cordas de aço e muito bem afinado, e o outro fazia a percussão numa espécie de pandeiro. O que importa mesmo é que aquele momento, para mim, foi bastante especial; esqueci de todo e qualquer pensamento adverso que estivesse cutucando minha mente e só me concentrei nos dois cantando aquela melodia deliciosa. Foi um prazer indizível, principalmente pelo fato de eu amar a música, mas, ao mesmo tempo, sentí-me um privilegiado, como se aquela melodia adentrasse minha alma, um presente dos ceus... e acho que foi mesmo, porque aqueles poucos instantes me permitiram ter a sensação que olhava para dois anjos imersos na música. Normalmente, fico meio impaciente aguardando na fila até que chegue minha vez de entrar no veículo, mas, hoje, pela primeira vez, torci para que demorasse um pouco mais, mas... não demorou, infelizmente! Meti a mão nos bolsos à procura de moedas e as deixei com o maior prazer dentro daquele chapéu que, na minha opinião, deveria estar repleto, transbordante, mas que na verdade não apresentava tais características, infelizmente. Em seguida, duas pessoas que estavam próximas a mim fizeram o mesmo, jogaram algum dinheiro lá dentro recebendo, de imediato, o agradecimento da dupla.

Segui meu destino, olhando e olhando até as figuras e o som desaparecerem por completo e tive a falsa sensação de estar num país diferente, socialmente desenvolvido, mas logo cai na real, o sonho foi-se tão rapidamente como a mim chegou... de imediato lembrei do triste fato ocorrido há pouco tempo atrás, creio que no dia 17 de novembro último, quando policiais da PM prenderam um guitarrista nas imediações da av. Paulista, comprometidos com ordens do prefeito Kassab. Eu me lembro muito bem disso, pois fiquei muito revoltado com esse fato - mais um que entra para o "Livro Negro da Arbitrariedade no Brasil"!
Momentaneamente, como já relatei acima, eu me sentí num país socialmente desenvolvido, com visão e normas voltadas para cidadãos; foi tão bom, tão gratificante ter-me permitido apreciar aqueles dois rapazes envoltos em sua arte na rua e em sua forma simples e bela de captar recursos próprios, mas... foi só por breves momentos, só isso! O sonho desfez-se rápidamente, enquanto a perua seguia seu destino, fazendo-me cair na real - o sonho transformou-se num pesadelo porque, numa fração de segundo, imaginei que aqueles dois moços poderiam ser meus filhos - e eu tenho dois filhos músicos! Um calafrio perspassou meu pescoço, pois percebi que o que havia imaginado não fôra nada surpreendentemente irreal, ao contrário, poderia ter acontecido com qualquer um - de repente, o nosso filho poderia ser o próximo! Meus filhos não utilizam essa fórmula para ganhar o pão de cada dia, não precisam disso, mas enxerguei naqueles músicos uma possibilidade, mesmo que remota, disso acontecer com eles e com outras pessoas mais... o mundo dá muitas voltas!
E senti vergonha alheia; senti uma pontada no coração ao lembrar de algumas fotos que uma amiga me enviou numa viagem à Europa, onde músicos próximo ao metrô acabam não só "enfeitando" o local, como, também, demonstrando que são respeitados pelo que fazem.

Aqui, a degradação social e a corrupção estão tão afloradas e enraizadas, tão em voga, que o povo já acabou se acostumando com barbaridades desse e de outros gêneros - a alta rotatividade dos fatos negativos acabou como que "vacinando" as pessoas para com as aberrações que se sucedem diáriamente, infelizmente! Políticos, pessoas corruptas ligadas às altas esferas, traficantes e toda uma rede afim acabam, normalmente, se dando bem por aqui - a prisão acaba sendo um mero substantivo em suas vidas, só isso! Sem querer, consegui ensergar-me naquela situação surreal, cercado de policiais, sendo algemado, meu instrumento jogado ao chão sem o menor respeito e tremi... tremi de medo e, também, de raiva por tudo que se passou em minha mente naqueles instantes, e sei que o que senti não foi algo ligado a um sonho, não, mas, sim, a um pesadelo...

E me pergunto até quando esses e outros fatos continuarão marcando, ou melhor, sujando as páginas de nossa história já tão manchada e vilipendiada... até quando!?






quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Música e sonho.









Fechei 2010 com saldo musical positivo, isso é muito legal! Hoje faço parte de uma banda, um grupo de pessoas que, além de uma amizade sólida, possuem interesses musicais bastante comuns, graças ao cosmo. Fizemos poucas apresentações, o suficiente, porém, para concluirmos que a banda deu certo -nosso "time" e nosso "feeling" musicais nos mostraram isso.
O universo é um manancial de surpresas; às vezes, temos a impressão de que determinadas coisas ou pessoas, por mais explícitas que sejam, se escondem, criando um estado de angústia interior, como se algo ou tudo esperado nunca fosse dar certo, mas... eis a magia - o Tempo - em seu ritmo constante e imutável, acaba trazendo à tona surpresas indizíveis.
Meu projeto musical permaneceu latente por quase cinco anos, ora tentando resgatá-lo o mais urgente possivel, ora esquecendo-o em função de outras coisas que a vida se nos apresenta; tantos altos e baixos, encontros que não aconteceram (tudo tem seu tempo!), até que, de agosto a novembro do ano passado, a vontade e a ansiedade espocaram juntas, e consegui parir um trabalho, que gratificante isso é...
Durante a maior parte de minha vida, releguei a música a um plano nada louvável, substituindo-a por uma atividade da qual não tenho saudades - desde garoto, trabalhei em função de um salário, pela subsistência, enfim, por uma carteira registrada; meus pais me educaram assim, e eu acabei seguindo o curso desses preceitos, infelizmente. Isso tudo me legou uma aposentadoria e um problema crônico chamado de L.E.R./D.O.R.T. (lesões por esforços repetitivos e/ou distúrbios osteo-musculares relacionados ao trabalho), nada mais.
Há bons anos atrás, minha médica me aconselhou a não deixar de tocar, de pegar meu violão, pois isso não interferiria negativamente nesse meu processo crônico; ao contrário, me faria muito bem, principalmente à minha alma... e segui seu conselho, abraçando meu instrumento numa relação gostosa e, ao mesmo tempo, temerosa, mas que fui me acostumando até perceber que isso realmente me fazia bem. Não frequentei escola de música; a única experiência marcante foi estudar guitarra por mais ou menos um ano com um professor particular, mas isso pouco interferiu naquilo que chamo de "minha pegada pessoal" - um jeito meu de tocar o violão, explorando as cordas superiores como que fazendo uma espécie de baixaria conjunta à harmonia.
Acho que deu certo; muita gente me diz que toco de um jeito interessante, que tenho uma pegada legal, e isso me deixa feliz, muito feliz mesmo, é o jeito que dei, e isso me deixa satisfeito em relação ao que consegui e consigo explorar no universo de minha musicalidade. E como tenho muita sintonia e facilidade com o contrabaixo, fiz disso um prolongamento nessa minha proposta musical, tanto que são esses os dois instrumentos que toco - o violão e o contrabaixo.
Percebo que fiz coisas extremamente marcantes e densas no decorrer de minha vida e, também, coloquei outras no baú do esquecimento - a principal de todas foi exatamente ter deixado de me dedicar à Música de cabeça e alma durante pelo menos dois terços de minha vida - e todo esse tempo pesou em mim, em meu coração, em minha alma, tanto que até cheguei a pensar em nunca mais pegar num violão, afinal de contas, isso não me levaria a qualquer ponto de convergência entre minhas vontades e minhas desvontades na vida... mas errei, ainda bem! Errei e só eu sei o quão importante foi resgatar um tempo só meu, um tempo onde eu me permiti não parar de tocar...
Percebo, também, que há determinadas coisas que não estão mais à minha mercê como, por exemplo, estudar técnica de instrumento exaustivamente - cheguei à conclusão que o que faço, apesar de simples, é bem feito e executado dentro de meu jogo de cintura, por sua vez, consegue atender determinadas exigências no processo de um trabalho em grupo, e isso me faz sentir muito bem comigo e com eles.
Fazemos um trabalho acústico muito legal, que vai do Pop ao Rock, sem deixar de passar pela boa MPB, as pessoas tem gostado bastante dessa nossa proposta e temos sido muito bem recebidos e ovacionados pela platéia - isso é maravilhoso!
Eu e meus dois amigos da banda temos muito em comum, faixa etária, gosto musical, geração afim, mas o principal mesmo é a amizade sincera e o caminho espiritual comum a todos - somos irmãos de fé!
Estou iniciando um ano que me promete boas surpresas no campo musical, e tenho certeza que isso irá acontecer, graças a mim, graças aos meus companheiros, graças ao plano divino; sem falsa modéstia, percebo que cada um de nós está dando o melhor de si e no conjunto dos bons momentos que temos passado juntos, é edificante, é compensador, é... merecedor dentro do quinhão de cada um!
Não faço ideia do quanto irei viver ainda, e isso realmente não me importa! Há pessoas que desejam viver muitos e muitos anos, outros, temem a morte, enfim, cada um tem seus motivos pessoais quanto à expectativa de vida, mas o que penso e quero, daqui para frente, é conseguir realizar poucas e boas coisas que compõe o leque de minhas aspirações - e, sem dúvida alguma, a Música ainda ocupa primeiro lugar no meu pódium pessoal; pretendo (e vou) viver o suficiente para cobrir determinadas lacunas que ainda estão em minha alma... morrer será consequência, e no tempo certo, sem medo ou arrependimento!
Agradeço, também, pela força da família, em particular o incentivo constante da Carmo e o carinho de meus filhos, principalmente no dia da nossa estreia - nós quatro sabemos da importância da música no nosso dia-a-dia, sem deixar de louvar os amigos que também fazem parte dessa salada musical... como diz o velho ditado "cada macaco no seu galho", e todos no mesmo movimento, não é mesmo?
Sonhar ainda é bom... os "3 THOTTENS" que o digam!




terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Fechando o ano de 2010.


Já faz um bom tempo que não escrevo neste meu espaço, e isso tem mexido com meu "eu" constantemente, pois, se tem algo que gosto de fazer, a isso chamo de escrever, independentemente da vertente do conteúdo.
Confesso que estou fechando um ano com chave de ouro (a duras conquistas!) comigo mesmo, o que é importante! Estou sentindo a "insustentável leveza de meu ser" desde os últimos dois meses para cá, aff!, ainda bem, afinal, ainda sou filho Dele, não é mesmo? Diria que é o inicio do espocar de um longo processo de maturação que vem acontecendo de cinco anos para cá, aproximadamente e, creiam, um processo doloroso e angustioso... mas estou começando a colocar a casa interior - meu altar pessoal - em ordem, graças a Deus, a uma série de circunstâncias e, lógicamente, a mim. Não existe mágica ou milagre no dia-a-dia, a vida apenas é o que tem de ser dentro dos limites do prazer e da dor. E agradeço por tudo o que me aconteceu nesse período, tudo mesmo, pois hoje sinto minha bagagem um pouco mais pesada e aumentada através das experiências da vida.
Enfim, estou escrevendo tudo isso apenas com o intuito de desculpar a mim mesmo por ter permanecido todo esse tempo numa espécie de inércia... mas, agora, o movimento reinicia!
Não pretendo mais deixar de postar neste meu blog; para isso, firmo a mim mesmo a meta de escrever um artigo semanalmente - no mínimo!
E aproveito o momento para agradecer ao cosmo por tudo - sejam coisas divinas ou não - pelo momento de crescimento pessoal que venho passando. Dizem que o sofrimento nos torna sábios, mas longe disso querer fazer disso uma verdade pessoal minha; apenas quero compartilhar alegrias e tristezas com quem estiver por aqui lendo estas minhas linhas...
Espero que tudo o que aqui coloco sirva de patamar a todo tipo de questionamento possível, pois é mudando (e sentindo-se em mudança) que conseguimos evoluir neste planeta, seja como ser humano ou como espírito.
Agradeço a todos os seguidores pelo carinho e compreensão de sempre, desejando um 2011 pleno de realizações divinas, cada uma dentro do merecimento de cada um. Fiquem na energia divina com um forte abraço meu, obrigado.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O Jantar.


O mês inteiro no preparo daquele jantar.
Tudo deveria estar impecável.
A quantia que o Dr. Dirceu adiantou merecia uma gentileza; assim, os juros talvez seriam perdoados e novos contatos surgiriam.
Oportunidade única de evitar a ruína iminente -
sua missão estava cumprida!
Era torcer para que todos viessem.
Olheiras pesavam no rosto de seu companheiro que, arqueado, revelava cansaço em seu humilhante sorriso sem jeito ao cumprimentar os convidados que chegavam.
Pouco a pouco, o som das gargalhadas se distanciava, tornando aquela cena um teatro mudo de horrores.
Era possível a ela ver, no lugar dos corações daqueles seres, buracos mal cheirosos, purgando um líquido morno e sem vida.
No lugar de mãos, bocas retorcidas e garras completavam a imagem dos personagens daquele espetáculo grotesco.
Trazendo o prato principal, a empregada quase derrubou a bandeja ao perceber o rosto lívido da patroa.

Um garfo cai...ela desperta, então!
Percebe, assustada, que alguém a está encarando; a caricatura do grupo  se esvai e ouve a esposa de um dos investidores elogiando a vitela.
Responde de forma gentil, voltando a si, mas fica intrigada e começa a olhar com mais atenção, cada uma daquelas figuras sentadas à mesa.
O tom melódico das vozes hipinotiza, tornando irrecusáveis as propostas.
Os sons tornam a sumir e  ela nota então que, junto dos que à mesa estavam, espectros se aproximam, sugando tudo o que poderia ser sugado naquela sala - o perfume da carne, as bebidas, a energia daquela farsa, onde um precisava tirar do outro o maior  e melhor proveito.
De maneira ávida, porém, discreta, vê nitidamente quando algo se aproxima do mais falante, e se acopla em sua jugular, criando uma simbiose bizarra.
O sensível esposo afunda na cadeira cada vez mais e,  pela primeira vez,  seus olhos brilham de alegria com um  tolo comentário ao ser elogiado pelos demais.
O chão do aposento está forrado de ratos e baratas, o teto é coberto por um manto negro que se move estranhamente, insetos e morcegos festejam a refeição.
Todos vieram! 

Carmo Tavares  

sábado, 21 de agosto de 2010

Réquiem Aeternam Dona Eis




















"Dai-lhes o repouso eterno".


É chegada a hora do último adeus. Uma derradeira caminhada para um destino do qual todos queremos fugir, mas ao qual estamos irremediávelmente condenados.

Em volta do caminho, monumentos de pedra e cimento nos dão alguma certeza inconsciente de que a jornada será segura.

Inevitável dor para os entes queridos que ficam, desagradável obrigação moral para os nem tão próximos.

Sensações que nos levam a baixar o olhar, como que procurando no chão um alívio milagroso para essa agonia velada.

Será realmente a morte o fim da vida? Será tão sombrio e triste o outro lado? Questões que incomodam e intrigam.

A coragem de erguer a cabeça e lançar um molhar mais observador e menos apaixonado sobre as peças revela beleza e vida, em contraponto ao silêncio eterno das almas em sua última morada.

(texto de Wilson Mahana)


Para quem aprecia arte tumular, vale a pena ir ver a exposição do fotógrafo J. Andrade na estação Clínicas do Metrô, com várias fotos em 'pb', ilustradas com magníficos versos do poeta Augusto dos Anjos (1884/1914). Eu ví, apreciei e amei, por isso tomei a liberdade de divulgar este trabalho em meu blog.


quinta-feira, 29 de julho de 2010

Minoria X reacionarismo.


Fui educado dentro de um processo de respeito ao próximo, ou seja, dar lugar aos idosos, mulheres grávidas, pessoas com crianças de colo, enfim, como meus pais me ensinaram - sempre me portei dentro desses parâmetros, não por culto ao que o social pensa de mim, mas por acreditar nesses preceitos.

Infelizmente, percebo que esses tais atitudes estão se tornando raros - a indiferença e o descaso têm sido companheiros leais no comportamento das pessoas, salvo algumas exceções, lógico!

Mas, também, percebo que essa "elite" diferenciada tem apresentado comportamentos que excedem o limite da compreensão e da paciência. Hoje, por exemplo, estava na fila do ônibus e, como de praxe, os idosos subiram à frente para, teoricamente, ocuparem os lugares que lhes são concedidos por lei. Haviam pelo menos uns oito representantes dessa faixa etária e praticamente todos foram ocupando os assentos que lhes são destinados por direito, com exceção de um casal que teve o descaso de se sentarem isoladamente em bancos individuais e não preferenciais...

Eu era uma das pessoas que pretendia sentar num dos dois bancos e não consegui deixar de olhar para ambos e comentar que eles estavam ocupando um lugar comum, e isso não estava certo, pois ainda haviam lugares conferidos a eles!

O homem, olhando-me de frente, apenas limitou-se a responder um sonoro "um dia você também chegará aqui, como eu!", ao que redargui de imediato "sim, certamente, se não chegar, páro no caminho, mas tenha a certeza que continuarei prezando por meus direitos e obrigações de cidadão, e acho que o senhor, agindo assim, está abusando de seu privilégio!"

Ele simplesmente desviou o olhar, como se eu nada significasse...

Fiquei extremamente chateado. Valeria a pena continuar uma discussão assim!? Ao meu ver, não, porque eu perderia terreno pelo simples fato de incorrer num estado tal onde a hipocrisia, acobertada pelo inconsciente coletivo, fariam com que eu parecesse o carrasco de tal acontecimento, e longe de mim isso!

Sinto-me pesaroso escrevendo isto, mas não conseguí fugir à minha têmpera e caráter, pois acho e, infelizmente, tenho certeza de que a tal "melhor idade" não aprimora os seres humanos - ao contrário, com o tempo, eles vão se revelando um pouco mais!

Tenho cinquenta e quatro anos de idade, e sei que estou a caminho da velhice - se não parar antes no percurso da vida - e jamais me permitirei utilizar de atitudes mesquinhas, amparadas numa lei hipócrita, pois acima de tudo, sou um cidadão, e as relações deveriam simplesmente ser pautadas nessa troca - a cidadania pela cidadania!

Fui!!!!!!!


quinta-feira, 22 de abril de 2010

Non Ducor Duco.




























Não pretendo ser saudosista - longe disso! - mas sinto na pele e no "meu" tempo mudanças assombrosamente rápidas, sabe, eu, tu, nós...
Venho de uma geração que se permitiu andar descalço e jogar futebol em rua de terra batida - como era bom e saudável, mesmo levando os tais "tropicões" nos pés - e havia, também, as festas juninas com fogueira e coisa e tal, a vizinhança toda participava, era diferente, sem querer dizer que tudo andava às mil maravilhas - estaria mentindo - pois não andava! Mas me parece que as pessoas se trombavam mais e com um tempo mais facilitado para tudo isso...
Era eletrizante ir à loja de discos - longplays - e comprar o último do Black Sabbath, do Deep Purple, entre outros; às vezes, chegava a economizar para, de repente, gastar tudo em som, música, em prazer sonoro, gozo sensorial...
Em poucos anos, a tecnologia driblou e suplantou problemas, tornando-os tão insignificantes que hoje em dia não se valoriza as dificuldades por tudo que as facilidades de hoje nos permitem - como era gostoso gravar uma música emendada a outra numa fita K-7, uma verdadeira batalha para unir tempo e espaço musical através de uma aparelhagem simples ...
Ia a uma pizzaria, há questão de uns parcos quarenta anos atrás, era um verdadeiro acontecimento! E haviam as tradicionais mozzarella, alho e óleo, calabresa, portuguesa e atum. Hoje, enquanto a fome nos devora, perdemos um tempo enorme em escolher o que se vai querer e, quanto maior o número de opções, maiores as dúvidas, uma confusão gastronômica e mental incríveis!
Trânsito! Parece mentira, mas isso sempre aconteceu de forma a nos tirar do sério, como se não houvesse mais possibilidades de melhora, mas... será mera impressão ou os veículos acabaram por tornar-se verdadeiros "tanques de guerra" - uma guerra fria, calculista e de poder - quem está dentro deles confina-se em seu micro mundo e pretende que o resto se dane (para ser mais educado)! Houve época em que automovel era sinal de necessidade; hoje, essa necessidade suplantou o status, impondo uma linha divisória forte e preponderante entre quem realmente necessita e quem tem mais! Progresso!? Não sei, prefiro acreditar que não, principalmente numa capital como a minha, que recebe diáriamente mil veículos novos nas ruas. Tenho até saudades de andar de bicicleta, uma grande aventura nesta cidade que amo, mas que acabou por deixar-me amedrontado e impotente, frente a uma lei selvagem subliminar que permite ao mais forte fazer e desfazer, impondo um estado de insegurança e desrespeito para com o mais fraco... alguém já teve a oportunidade de assistir o filme "Encurralado"!?
Percebo, com isso, que valores importantíssimos foram se perdendo; um deles, talvez o mais importante, é o respeito para com o próximo - não há quem não se sinta com o ego massageado quando tratado com dignidade e respeito! E hoje em dia, aquém desse respeito pelo próximo, não respeitamos a nós mesmos, o que é mais dificil de aceitar!
Namorar no escuro, às escondidas, era sinônimo de conquista. Passear à noite, caminhando e roubando beijos e abraços fazia parte dessa conquista - hoje, nada mais é do que impor-se e conseguir vencer a violência desmedida!
Andar e falar sozinho na rua era um sintoma de loucura... Atualmente, os fones de ouvido de celulares justificam tal atitude. Por várias vezes me ví impelido a procurar a ajuda de alguém com uma dúvida, uma informação ou seja lá o que for, e percebí que estava sendo inconveniente, pois a pessoa acabava por ter de sair de seu mundo hermético para me dar uma resposta rápida e seca! Percebo que um número cada vez maior de "fonados" vem aumentando; pessoas cada vez mais imersas em sua individualidade sonora, sem falar naquelas que não se permitem mais dispor de seu sagrado tempo de almoço, por estarem conectadas vinte e quatro horas por dia a um mísero aparelho de comunicação...
Palavras, palavreados, gírias, chavões... um mundo cada vez mais amplo e que, ao mesmo tempo, foge cada vez mais de nossa língua- mãe. Assusto-me constantemente, escutando verdadeiras aberrações onde, de repente, pergunto a mim mesmo: "o que será que estão querendo dizer com isso!?" Será que devo me sentir como um excluído na terra que me abriu os braços e fez com que a língua portuguesa fosse meu carro-chefe no dia-a-dia!? Essa língua, linda e maravilhosa, cada vez mais perdida em meio a mentes dilaceradas pelas injeções de banalidades passageiras e supérfluas...
Tudo tão rápido e tão sem concretude, sem o troféu da perenidade; valores são construídos na mesma velocidade com que são destruídos - a mídia é mestra nessa arte! Mesmo assim, detesto adentrar o papo ufanista do "antigamente", como se isso purgasse a humanidade dos feitos e das desgraças de sempre...
Como bom libriano que sou, sempre me sentí à vontade para com a proximidade alheia, um papo informal, uma pergunta, etc., mas hoje, exatamente hoje, sinto cada vez mais a distância das pessoas ao meu redor. Existe uma força que move a massa através das ruas, impelindo-as a caminharem como verdadeiros autômatos que não olham o que vem à frente - bólidos humanos (ou humanóides!?) que fazem da força física a mola-mestra da grande aventura do cotidiano, pretendendo mostrar ao mundo que chegaram para dominar, mas não percebem que o nada os está dominando, promovendo uma relação direta entre a massa muscular e a mente bruta...
Até pouco tempo atrás, gerente era alguém que, devido aos longos anos de atividade, possuía conhecimento e experiência do todo dentro da empresa. Hoje, sinto-me ultrajado quando sou obrigado a resolver um determinado problema com um tal gerente - alguém que a parca idade ainda não possibilitou a envergadura de um lider!
As escolas nada mais fazem do que possibilitar diplomas a pessoas despreparadas que, mesmo depois de formadas, ainda se comunicam de forma hilária e patética... A ditadura militar conseguiu efeitos contundentes e letais ao suprimir as cadeiras de Filosofia, Psicologia e Sociologia no segundo grau no início da década de 70 - afinal, para que as pessoas pensarem!? Quem pensa também questiona e age...
Hoje, estou imerso num mundo tão moderno e rápido, mutante e degradante, que tem me incomodado muito, o suficiente para não deixar de tomar meu antidepressivo e perguntar-me aonde irei parar com tudo isso!
Vivemos um momento surpreendente, que nos permite reescalonar valores perdidos num passado tão próximo. Somos nós mesmos que procuramos tudo isso ou somos meros estafermos de um sistema podre que nos alicia e nos anestesia, fazendo com que caminhemos a passos largos, longe de nossa verdadeira essência em querermos um mundo melhor?
Ao menos, resta-me a lucidez de ter a certeza que a energia divina - manipulada e justificada por mentes sórdidas e perversas - está acima de tudo e de todos, permitindo a cada um de nós o livre-arbítrio na senda da vida.

"Alea Jacta Est".